segunda-feira, 4 de maio de 2009

SANGUE FÉTIDO


Suave e gravemente
O seu ataque desesperado
Afaga e morde os lábios
Como em fúria dormente

Um gosto amargo na boca
Do beijo ainda recente
Solvente lavaria o céu
O céu arruinado de fel

Mas a arritmia cerrada
A veia ainda acelerada
Faz-lhe o gosto subir ao céu

E um escarlate sorriso amargo
Escorre do céu da boca:
Sangue fétido, paixão louca!


2 comentários:

  1. Pó cheira a raio de sol,
    mel bravo à liberdade,
    boca de moça à violeta,
    e o ouro não cheira a nada.
    A reseda cheira à água,
    amor à maçã rescende,
    mas agora já sabemos-
    só o sangue cheira a sangue...

    Em vão o pretor romano
    se lavava as palmas grossas
    sob os gritos da plebe.
    E a rainha da Escócia
    debalde raspava as gotas
    vermelhas da mão esguia
    na penumbra sufocante
    da real moradia.


    Anna Akhmátova, Só o Sangue cheira a Sangue

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