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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Eurico, o Presbítero (Alexandre Herculano)

Apresentarei aqui, um pequeno resumo de uma humilde análise literária que fiz na época da graduação, sobre o romance Eurico, o Presbítero do escritor português Alexandre Herculano. Mas não pensem os leitores que faço isso com a propriedade de um crítico literário (não tenho formação acadêmica suficiente para tal, assumo), mas sou curiosa e gosto da coisa. Pois bem, vamos a ele.

A análise em questão joga luz sobre a personagem
Eurico, enquanto poeta, sacerdote e herói. E por esse viés desenvolvem-se temáticas de ordem social, político, romântico e religioso.

A personagem
poeta é o homem que divaga em meditações sobre a morte, a guerra, a solidão e o amor, compondo hinos de derramamento espiritual. O sacerdócio é a missão que abraçara não por vocação, mas por força de um amor não correspondido e que o faz abdicar dos prazeres materiais da mocidade e de homem guerreiro, indo refugiar-se nos braços da Providência. O Cavaleiro Negro faz de Eurico, o herói. Suas convicções religiosas não o impediram de sacrificar o celibato em prol de causas que julgava nobres: a moral, o caráter e o amor à pátria.

Em Eurico, o Presbítero, Alexandre Herculano aborda com muita propriedade as relações sociais que se estabelecem no momento histórico vigente (Portugal de 1844) e o momento que retrata o início do século XVIII, bem como a invasão da Península pelos árabes, em 711. Portanto, História e Arte se mesclam na obra de forma cronológica/metodológica: ao passo que a ficção pinta um quadro remoto do mundo medieval, o sentimento romântico aflora nos momentos de tragédia, heroísmo e tensão espiritual.

Segundo Maria Beatriz Silva (1977), "Sempre que iniciamos a leitura das obras de um historiador, devemos fazê-lo com um espírito crítico que nos ajude a destrinçar a parte objetiva da parte subjetiva do seu trabalho". Sobre esse aspecto, verifica-se, em Eurico, o Presbítero, a fusão do homem de pensamento e o copilador de materiais, graças a inserção do autor à estética romântica. E sob uma visão medievalizante, o autor vai conferir um enfoque histórico a sua obra, explicando o que conta hoje em função do passado.

Angélica Soares (1989), recomenda uma análise de tendência formalista e conteudística, ou seja, pensamento/discurso. Este, está sempre no presente, àquele (a diegese), no passado. A evasão temporal, na narrativa, está implícita logo nos primeiros capítulos, com o enfoque nas batalhas nas quais Eurico tomou parte, os primeiros momentos dos godos na Península Ibérica e a alusão à expulsão dos árabes. Na obra em questão, poucas vezes, o diálogo aparece porque o narrador heterodiegético traça um plano (interior e exterior) para ser observado. O seu olhar busca integrar esses elementos aos temas morais, políticos, religiosos, sociais e históricos. É o que ver-se na personagem Eurico, um misto de poeta, sacerdote e herói, no qual o escritor problematiza todas esses questões.

Obra de caráter híbrido (os gêneros se mesclam na narrativa), mas numa sequenciação de ações. Até nos momentos em que o narrador "empresta a voz" a Eurico e a Teodomiro, por meio das cartas, ocorre a chamada
focalização esteroscópica, típica nos romances epistolares, como em Dostoievski.

Nos primeiros capítulos do romance, percebe-se o tom poético nas palavras que brotam do coração ferido do poeta. São expressões líricas lamentando a sua infelicidade amorosa:
"Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te muito! Adorava-te muito! Adorava-te só no santuário do meu coração..." Derramamento em tom lírico mergulhado no interior da convivência com a solidão e saudade da amada. Ainda em suas vigílias noturnas, compunha hinos de alento à alma cantados nas dioceses, e que, mais tarde, viriam a ser descobertos em sua autoria, o que o fez mais respeitado em sua aldeia de Cartéia e adjacências. "Sabeis o que é esse despertar do poeta? É o ter entrado na existência com um coração que transborda de amor sincero e puro..." Nota-se nas palavras do poeta, um sentimento contido e diminuto frente às descrições de paisagens e dos conflitos políticos e militares que se apresentam ao longo da narrativa. De acordo com Massaud Moisés (2004), "O escritor deixava transparecer uma excessiva vigilância da inteligência ou o sufocamento provocado pela erudição histórica". Em outras palavras, a História sobrepõem-se à imaginação.

Eurico, enquanto sacerdote, esteve com o coração e o espírito voltados para a missão que abraçara, no intuito de curar-se de um amor impossível. O sacerdócio fizera-o renascer e perceber o amor, a virtude e os sentimentos sublimes que há no homem transformado pelo evangelho. Contudo, o espírito guerreiro e as aspirações poéticas continuam vivas. Em seu "retiro" interior de poeta e espírito cristão, recorda: "
...e a minha alma via passar diante de si esta geração vaidosa e má, que se crê grande e forte, porque sem horror derrama em lutas civis o sangue de seus irmãos". E profetiza: "Virá um dia a esta nobre terra de Espanha gerações que compreendem as palavras do presbítero".

Esse tom profético é uma espécie de prenúncio, de visão das catástrofes que virão: ".
..ao aproximar-se os dos dois exércitos de nuvens prolongaram-se em frente um do outro e toparam em cheio. Era uma verdadeira batalha". Portanto, o Presbítero empresta à narrativa, um cristianismo de sentimentos e visões, mas que não perde a racionalidade. Ranços de raízes neoclássicas de Herculano.

O
herói, Cavaleiro Negro, é uma espécie de retrato do semideus, acima do humano, "...um misto de guerreiro e santo" (MOISÉS, 2004). Os seus feitos heróicos assemelham-se aos heróis de Homero e às novelas de cavalaria. Guerreiros valentes, seres lendários. Eurico, portanto, movido pelo amor à pátria, não suporta ver a força moral e material da nação se esvair: cavaleiros esmagados aos pés dos que guerreavam. A destruição social abre-lhe novamente a ferida que julgava cicatrizada. E movido por esses acontecimentos violentos e um ideal grandioso, ele emerge como um vulcão na batalha de Crissus; no episódio da abadessa do mosteiro; no rapto de Hermengarda e no desfecho da narrativa. Feitos heróicos que remetem à Idade Média, à época visigótica, à luta com árabes, à decadência de impérios. Temáticas recorrentes, bem ao gosto dos românticos.

À guisa da conclusão, não será incorreto afirmar que, estamos diante de um romance histórico, não exatamente, nos moltes de Scott, como o autor bem admite, talvez pela dificuldade, pelo difícil acesso a informações precisas sobre determinados fatos históricos. Daí a introdução na narrativa da poesia lírica - como também as digressões, os apartes filosófico, doutrinário e político - conferir à obra um certo caráter subjetivo. Mas que Alexandre Herculano não abriu mão, ao narrar os acontecimentos, o máximo de descrição histórica. Essa metodologia, utilizada pelo historiador, romântico e liberal, ainda hoje é tida como fonte segura para o estudo de determinadas épocas da História de Portugal.

5 comentários:

OÓCIO disse...

Não seja modesta, sua análise é muito atenta aos detalhes do texto e atenciosa ao autor. Sensível. Parabéns.

CÉU e MAR disse...

Bigaduuuuu!!!!

PS: Meu mestre dizendo, tá dito...

Seu Creicio disse...

Valeu, você foi brilhante em tudo que falou do Presbítero e de seu criador.

Seu Creicio disse...

Valeu, você foi brilhante em tudo que falou do Presbítero e de seu criador.

CÉU e MAR disse...

Grata pela visita e os comentários, "Seu Creicio". Volte sempre...