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Fiz esse blog com incentivo de um amigo meu das letras. A princípio era mais uma brincadeira de escrever, mas aos poucos fui tomando gosto pela coisa, e hoje não consigo passar um dia sem "por os pés" aqui. Agradeço sinceramente os caros leitores que "pisarem" por aqui, também. Fiquem à vontade para comentar, sugerir, descer o cacete...rs, ou mesmo se tornar um "seguidor" desse democrático ou rabugento espaço (como queiram).

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terça-feira, 9 de junho de 2009

VENDEM-SE MULHERES NUAS

Grafite by Joás


_Quem deixou tu entrar, porco?

A expressão doeu meus tímpanos. Lembro bem a sua fisionomia, aquele olhar fulminante sobre mim e a boca vomitando ofensas. Por alguns minutos senti queimar minha moral. Se fosse hoje, desceria um murro sem dó nem piedade (o tamanho e a idade ajudariam), bem no meio da cara daquele sujeito engomadinho de cuturno e casaco preto de couro. O par de luvas pretas de dedos vazados, ainda deixavam as falanges grossas e ásperas a mostra e o indicador em riste, a um palmo do meu nariz. Senti naquele momento um desejo enorme de decepá-lo com uma dentada, mas respirei por um milésimo de segundo antes de tomar tal atitude, e contive meus impulsos.

Tem exatamente um ano hoje, que bateu as botas. Foi pra terra dos pés juntos. O assassino estava a espreita numa madrugada fria e chuvosa na esquina da 1º de março. Estremeci mais uma vez, senti náuseas e calafrios imaginando a cena: dentes cerrados e amarelados; cabelos grisalhos, fios duros, pegajosos do sangue e da chuva que escorreram durante a madrugada; olhos duros a contemplar o céu escuro de uma viagem sem volta. Os motivos pouco me interessaram, só sei que senti um alívio repentino, uma sensação de liberdade.

_Eu paguei, moço, olha aqui o bilhete.

Rebati a ofensa me justificando, mas o coração batia acelerado e as pernas tremiam de medo.

_Mas aqui não é lugar pra pirralho do teu tamanho, não, imundo! Some daqui, já!!

Arrastou-me pelo braço por entre os corredores fétidos das poltronas e dos expectadores, alheios a cena (ainda olhei...também pudera, a do telão era mais interessante, o cara transava com duas loiras na boleia de um caminhão). Abriu a porta e jogou-me com força naquele único corredor que dava para a saída e entrada da única sala daquele lugar. Bati à cabeça na quina de uma simples caixa de madeira que servia de assento pra o "vigilante", mas foi o suficiente pra que uma lasca espetasse a minha testa e deixasse uma cicatriz que me persegue até hoje. Droga! Essa marca fez-me tomar aversão a espelhos. Todas às vezes que vejo a minha cara refletida, vem a imagem dura daquele ser asqueroso e repugnante a reprovar a minha presença naquele ambiente.

Nunca havia entrado num cinema (tinha só dez anos), muito menos assistido um filme sobre sexo. Mas o que atiçou a minha curiosidade foi o anúncio na parede suja e desbotada do prédio: "VENDEM-SE MULHERES NUAS". Passei em frente três vezes tentando soletrar o letreiro (estava começando aprender a ler), pra me certificar direitinho do anúncio. Até que me convenci pela força da palavra. Juntei uns trocados que ganhei com os fretes durante a semana, mas não foi o suficiente. Quebrei o porquinho que tinha ganhado da tia Lili (jurava pra ela que guardava as moedas pra fazer uma boa ação às Irmãs da Caridade), contei tudo apressadamente e juntei num saquinho plástico: 10 contos. Seria esse o preço que iriam cobrar pela entrada? E sobraria dinheiro ainda pra comprar uma delas? Pensei. Enquanto isso a minha mente curiosa ainda imaginava coisas; um corpo feminino, nu, parado a minha frente, e eu tremia e suava admirando sem saber o que fazer, nem como fazer, mas certamente aquelas imagens foram um momento inesquecível de delírio infante.

Voltei ao tino e toquei pro banheiro passando por tia Lili no corredor, como um foguete. Ela assustou-se:

_Menino, pra onde vai com toda essa pressa?

_Tomar um banho, tia. Depois trocar de roupa e ir na casa do Nando fazer um trabalho de Arte! Convenci.

Diria pro leitor, que se fosse hoje, ela desconfiaria de minha resposta na hora, e, certamente, reprovaria. Mas os atos de um homem adulto às vezes justificam o seu passado.

Depois de colocar a camisa xadrez e a calça nova de bolsos laterais, pus neles os trocados que arrecadara, e sem titubear calcei os sapatos e coloquei um casaco jeans que a tia havia comprado, semi novo no bazar beneficente da Igreja. Pedi a benção dela apressado batendo a porta atrás de mim (a sessão começaria às 17:30) e saí. O meu destino fez-me relembrar durante todo o percurso de 15 minutos, o título do filme. Colocava as mãos nos bolsos a todo instante pra me certificar se o dinheiro estava ali, e pensava: "Será que vai dar?"
Observei de longe: estavam na fila aguardando a próxima sessão, cerca de umas trinta pessoas, entre elas uma senhora gorducha que a todo tempo puxava pela mão um homem franzino ao seu lado, apontava para o cartaz e ria. Fiquei sem entender bem o que comentavam, mas vi neles, principalmente nela, a minha saída, ou melhor, a minha entrada. Enquanto as pessoas compravam o ingresso, a fila ia diminuindo e eu me aproximava cada vez mais do lado esquerdo daquela senhora, escondido em suas carnes avantajadas. Foi aí quando chegou a sua vez percebeu que o dinheiro só dava pra pagar o dela. O cara vociferou e eu me aproveitei da situação favorável a mim. Dez contos, era tudo que eu tinha. Há pouco mais de um metro de ver meu desejo realizar-se, não pensei duas vezes: camuflei os meus dez contos e os meus dez anos por baixo do capuz do casaco e da gordura dela, estendi-lhe as minhas economias, ela segurou depois me empurrou, eu emburaquei. Pronto, estava dentro. Arregalei os olhos ao meu redor, não enxerguei ninguém, um breu só...tremi. Senti o braço de uma cadeira do meu lado direito, tateando vi que estava vazia. Sentei e senti uma sensação de alívio. A tela demorou abrir uns dez minutos e as pessoas começavam a inquietar-se e xingar com palavrões. E eu caladinho que só um coco no fundão da fila do canto direito, não dava um piu. Fosse descoberto seria o meu fim. Até que para o alívio dos expectadores e desgraça minha, a tela abre-se com uma sonoplastia ensurdecedora e uma imagem convidativa: "VENDEM-SE MULHERES NUAS". Coloco as mãos nos bolsos, mas uma claridade bem no meu rosto anuncia o começo do fim de minha alegria:

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