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Fiz esse blog com incentivo de um amigo meu das letras. A princípio era mais uma brincadeira de escrever, mas aos poucos fui tomando gosto, e hoje não consigo passar um dia sem "por os pés" aqui. Agradeço sinceramente os caros leitores que passarem por aqui. Fiquem à vontade para comentar, sugerir ou acompanhar esse democrático e rabugento espaço (como queiram).

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CONTO O INÍCIO PELO FIM



Era para ser um CONTO "normal" , com sequência linear e tudo mais, como manda o figurino, digo, os gramáticos. Mas de propósito fugiu à regra, e olha no que deu:

deu por encerrada a sua história Negociou e em seguida virou à esquina e com um estampido ensurdecedor Saiu para vender tudo que tinha num bazar da igreja Mas pensara mil vezes antes de fazer isso Sentia tanta vergonha que chegava a doer Estava tão cético tão incrédulo de si que nem mostrava mais a cara Pensava nisso o tempo todo e jogava o corpo contra a parede acrílica porque sentia nojo da própria imagem E só permitia a entrada para o sexo Ele quem destruiu a casa onde residia a Glória Porque o Amor reinou e depois fincou estacas afiadas em seu peito Tornou-se um trapo de pele nua A terra onde plantara flores agora colhe mediocridade Cansou daquela vidinha inútil

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

NEM TE CONTO...


Nem te conto...

Ele tentou por muito tempo. Detestava ser incomodado naquelas horas. Fazia desse momento um ritual de prazer, nunca um dever. Nem percebia as horas passarem. Todo o dia, naquele ponto, lá estava ele para mais um encontro. Às vezes, ela quem chegava primeiro, perfumada, carinhosa, faceira, voluptuosa; outras vezes, arisca, rebelde, sorrateira, sussurrava algo em tom de brincadeira e escapulia deliciosamente noite a dentro . Deixava-o na mão, com uma sensação louca de incapacidade e impotência. E assim foram horas, dias, meses, anos a fio. Até que numa noite quente de verão tomou coragem, resgatou-a da escuridão e a introduziu em sua câmara. Ali, fez amor com sua verve, chegou ao ápice, sentindo o sabor da conquista: concluiu o primeiro livro de uma série de manuscritos engavetados.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

MINICONTO SIBILANTE


Setva sempre soubera ser a saloia serena, sensível, sorriso sincero, sagrado ser. Sua sina a sibila sentenciara: seria serva e solitária. Sorte significava silêncio, sombras, surtos, sinais. Somente o sábio Sygnifficadus a salvaria. Sem solução saiu sozinha. Mas a sibila a seguira em sua sentença. O sereno e a seiva das sempre-vivas suavizavam o sofrimento. Seguiu...
Num sítio simples situado à sombra de uma sephirat, um santuário. O ser superior semelhante a Sófocles sustentava a Sabedoria. Setva silenciou. Súbito sentimento de segurança a surpreendeu. E sentada à sesta sonhou...
Sonhara sensível, mas segura e solta, seguindo a si, a sabedoria.

domingo, 26 de abril de 2009

DESTINO A MEIO FIO


Caminhava cabisbaixo como se fosse um vício. Durante meses observei essa atitude (não que eu quisesse me envolver, me meter na vida alheia, mas era o meu caminho o dele, oras!), um jeito meio arredio para um garoto de sua idade. Quando me olhou por baixo das pálpebras, a primeira vez, a impressão que tive foi de um menino sisudo, cílios negros a proteger um par de olhos grandes castanho-mel, delineados por uma sombra de dúvida que eu duvidava um dia descobrir o mistério. A idade tem lá suas descobertas...mas não foi naquele dia, ainda ( se quer saber o leitor).

Descia a rua a passos lentos olhando o chão como de costume, como a ler o destino dormente, pisado, dividido, por entre as linhas imprensadas dos paralelepípedos, quando de repente teve um ímpeto: subiu no meio fio do lado esquerdo da rua, e poe-se a caminhar, talvez a dançar, não sei. Acho que nem notou a minha presença que passara do outro lado a bisbilhotar os seus passos, o seu trajeto, o seu passado (seu pensamento?). Os pés trocavam de lugar num sincronismo e equilíbrio absoluto de quem domina a arte num palco para poucos. E eu tive o privilégio de assistir, ali mesmo no palco de pedras. Sumiu na primeira esquina da rua, do lado esquerdo. E foi assim durante meses.

Engraçado, como às vezes, a gente nota grandes coisas em pequenas coincidências. Fosse eu bancar a curiosa e segui-lo até àquela casa (confesso que vontade não faltou) teria perdido o prazer da descoberta e a aventura que esta me proporcionou.

Era domingo, chovia. Um daqueles dias frios de junho. As folhas dançavam ao som do vento e da garoa fina. Coloquei o pulôver, um casaco preto pouco acima dos joelhos, um jeans básico por dentro das botas, as luvas, a touca e um cachecol de lã completaram o meu visual anti-frio. Apesar do tempo, estava pronta pra o que desse e viesse. Mas como sempre, cinéfila que sou, tinha planejado ver no cinema, a estréia de "E o vento levou". Subi no ônibus, rumo ao destino que me reservava uma experiência única, porém dividida com ele. Da janela o vento no rosto e nos cabelos vi passar carros, gentes, paisagens, casas que me espiavam numa velocidade rápida dos meus 15 anos, menina-moça encantada pelos risos, brincadeiras... promessas de sua idade, mas principalmente pela dança. Ele foi o primeiro e único que eu conheci, que arrebatou parte de mim. Nunca mais os vi.

Dei por mim quando já estava no último quarteirão da Avenida Manoel Bandeira (ah, meu Santo Onírico!), duas paradas após. Desci xingando o cobrador e o motorista por não me avisarem, já que sabiam onde eu costumava descer naqueles dias. Seu Nino pediu desculpas, mas com um ar de pouco caso (já éramos velhos conhecidos) acelerou a máquina e partiu. Voltei caminhando pelo lado direito da rua, pulando aqui e ali, livrando-me das poças d'água que se acumularam com a forte chuva do dia anterior. Enquanto fazia esse trajeto de cabeça baixa, atenta para não encharcar as botas lembrei seus passos alternados pelo meio fio e subi (dizem que a vida imita a arte). E foi assim que nos deparamos. Parados, desta vez, tentei reviver o meu passado naquele par de olhos grandes castanho-mel e adivinhar o segredo. Mas ele puxou-me pelo braço e levou-me até aquele prédio, no primeiro andar. Subimos escadarias, passamos por corredores de piso de madeira lustroso. Conduziu-me até uma sala à meia luz e desapareceu. E ali de pé, fiquei por quase meia hora, parecia uma vida: trinta anos de minha existência. Senti o coração pular quando um refletor azul-celeste parou bem em sua frente, não tive dúvida, era ele, olhos iguais: castanho-mel. O som da silente "Lago dos Cisnes", e as cortinas se abrindo para o meu menino dançar fizeram mergulhar no passado, dessa vez de olhos bem abertos. Seus quinze anos o tornara esbelto, tronco firme e membros bem torneados. Aplaudimos sua bela atuação, agora no palco. Apresentou-me seu pai que veio pela primeira vez assistir o ensaio, depois de vários meses de insistência e resignação. Sofrera muito até tomar a decisão. Ele o criara sob forte regime autoritário e não aprovava a sua opção. Por isso, saía de casa escondido naquela hora; todos os dias para ensaiar naquela mesma casa; na primeira esquina da rua do lado esquerdo. Coisas de meio fio umbilical!